TRAUMAS HERDADOS DESDE A ESCRAVIDÃO AFETAM NOSSAS RELAÇÕES AMOROSAS

O álbum visual “Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água” da artista Luedji Luna começa com a música “Uanga” de Lande Onawale. No trecho é cantado: “O amor é coisa que moí muximba. E depois o mesmo que faz curar”. Muximba é uma palavra africana que significa coração. A canção é o prefácio do álbum e pedimos licença para utilizá-lo como abertura para o nosso artigo.

O Álbum Visual de Luedji Luna está disponível no YouTube


A princípio falar de amor parece leve, mas debruçar-se sobre esse sentimento para a população negra é um processo delicado e muitas vezes doloroso. Amar o outro e estabelecer relações de qualidade, está diretamente ligado a uma visão positiva sobre nós mesmos.


O racismo e o “padrão beleza”, causam impacto na estima dos pretos e pretas, dificultando o cultivo do amor-próprio com estereótipos negativos. Como podemos esperar do outro o amor e aconchego que não nos oferecemos?


Em “Vivendo de amor”, bell hooks¹ explica que o sistema escravocrata e as divisões raciais criaram dificuldades para pessoas pretas estabelecerem relações de afeto. A exploração e opressão afetaram o crescimento espiritual de nossos ancestrais que testemunharam seus parentes e amigos sendo vendidos e maltratados.

No artigo, bell hooks¹ supõem que ao fim da escravidão, os homens e mulheres estavam despreparados para praticar a arte de amar, reproduzindo o modelo hierárquico dos senhores de engenho nas relações. Em um trecho a autora escreve: “levavam os homens a espancarem as mulheres e os adultos a baterem nas crianças como que para provar seu controle e dominação”. Esse modelo hierárquico infelizmente foi passado de geração em geração e está presente nos nossos vínculos até hoje.


Foto: bell hooks (Reprodução)

Em determinado momento do seu álbum visual, Luedji Luna aparece andando em Salvador, tentando se conectar com as pessoas que encontra no caminho. Ao chegar em sua casa, a face sorridente da cantora desaba para um choro aberto de uma mulher que se olha no espelho sem um amor que a contempla. As cenas remetem sobre estar sozinha e a como a falta de um vínculo saudável nas relações nos afetam.

Precisamos quebrar esse ciclo de relações com modelos hierárquicos. Uma das formas é através de nossos filhos, como explica o livro “Por que gritamos” de Elisama Santos, que fala sobre a importância da educação não violenta (física e verbal), a fim de evitar traumas desnecessários na infância. Outra forma é através de nossas relações com familiares e amigos, tentando estabelecer relações saudáveis que tem limitações e consensos em ambos os lados, para a criação de uma rede de apoio sólida e segura. E também, se necessário, procurar ajuda especializada como grupos de apoio, terapeutas ou psicólogos.


Foto: Elisama Santos (Reprodução)

O poema “Quase” de Tatiana Nascimento, presente no álbum visual “Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água”, estabelece de forma delicada e genial a construção amorosa real, em que os sujeitos com suas limitações partilham suas particularidades sem perder a individualidade. O encerramento do álbum, fica a cargo de Luedji mergulhando no mar ao som da música título do projeto, no qual retrata o mar como o amor, às vezes maremoto ou maré mansa. E comprova que bom mesmo é estar mergulhada no amor.


Sigamos o exemplo de Luedji Luna e o sábio ensinamento de bell hooks¹ de que o amor é uma ação. E essa ação precisamos realizar todos os dias.


Notas:

¹ bell hooks é escrito em letra minúscula, porque a autora tem o intuito de dar enfoque ao conteúdo de sua obra e não à sua pessoa.


Fontes:

Álbum Visual Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água – Luedji Luna

Artigo Vivendo de amor – bell hooks

Livro Por que gritamos – Elisama Santos


Autoras:

Lucia Teodoro, Jornalista e Social Media. Integrantes do Coletivo Prunegro.


Revisão: Coletivo Prunegro.




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